O Partido da Causa Operária (PCO) decidiu, em sua 39ª Conferência Nacional, pelo voto nulo neste segundo turno da eleição presidencial e em todas as disputas estaduais para governo. Naturalmente, o Partido nunca chamaria a votar em Flávio Bolsonaro. Dito isso, este fato não justifica votar em Lula.
A decisão do Partido, conforme a sua resolução política, aprovada por unanimidade, considera que o PCO apenas pode votar em candidatos que representem os trabalhadores, que estejam em oposição ao regime político, ao sistema, e que possam incentivar a criação de uma política independente e classista diante da burguesia.
O PCO não vota em outros partidos, a eleição de 2022 foi uma exceção. Em todos os anos, votamos nulo no 2º turno, inclusive nas disputas de governador e de prefeito nas mais diversas eleições. A decisão em 2026 não é, portanto, uma surpresa, mas sim a continuidade de uma longa trajetória e de princípios.
O PCO é totalmente contrário à ideia de voto útil. Consideramos que o voto em candidatos nos quais o eleitor não acredita, apenas para impedir outro candidato em que ele acredita menos ainda, é um mecanismo para fazer prosseguir o regime político que está arruinando o Brasil e lançando-o ao retrocesso, bem como para manter a dominação do grande capital e do imperialismo no nosso país.
O objetivo de nosso Partido, nossa razão de existir, é desenvolver a consciência de classe do povo, criar uma alternativa política própria dos trabalhadores. Lula é um líder oriundo dos sindicatos e visto por uma parcela do eleitorado como um representante seu, oriundo da sua classe. Quando ele foi, em 2022, candidato à Presidência, não era o candidato de uma facção da burguesia e do grande capital, era apenas um político que buscava conciliar o interesse dos trabalhadores e dos capitalistas.
A presença de Geraldo Alckmin na chapa em 2022 não era a participação de setores relevantes da classe dominante. Alckmin era um representante da sombra da burguesia, um político burguês falido. Era uma declaração de intenções de Lula para o capital.
Lula cumpria a função de oposição ao sistema não pelo que pensava, mas pelo que é e pela posição em que estava colocado.
Objetivamente, os mandatos de Dilma eram mais esquerdistas e combativos, mas nós não votamos nela, pois ela não é uma representante dos trabalhadores, ainda que tenhamos respeito por ela.
Isso não impediu que o PCO dedicasse seu melhor esforço — todo seu esforço — para impedir o golpe de Estado de 2016. Não impediu que o PCO sofresse represálias, desde processos judiciais até militantes presos, entre outros.
Após o impeachment, o PCO lançou sozinho uma campanha pela anulação do processo golpista. O mesmo fizemos com Lula, quando ameaçado de prisão e quando seus direitos políticos foram cassados. Também defendemos os réus do mensalão, processo político, ainda que tenhamos tido debates e embates duríssimos antes e depois do julgamento com estes.
O Partido não aceita e não apoia nenhum ataque dos capitalistas contra os trabalhadores, contra os direitos democráticos e contra as conquistas do povo. Não importa quem seja o alvo.
Provamos isso ao defender os réus do processo, igualmente persecutório, do 8 de janeiro, bem como os diversos parlamentares e jornalistas censurados e presos, até mesmo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O PCO está disposto a trabalhar com quem for possível em reivindicações concretas, seja o aumento do salário mínimo, seja a redução da jornada de trabalho, seja o fim do STF e a defesa das liberdades democráticas. Acreditamos em acordos pontuais para obter vitórias concretas para os trabalhadores.
Não acreditamos, salvo em raras exceções, em apoiar candidatos que não representam os trabalhadores e que não defendem o programa que achamos correto.
Neste mandato, Lula, ao se ver encurralado dentro do regime político, formou uma coligação de fato com setores da burguesia, inclusive imperialista, como Simone Tebet, Marina Silva e até mesmo uma ala do STF.
Isso marcou também uma guinada à direita de seu governo em relação à política econômica, com um neoliberalismo suave; e na política externa, com posições desastrosas em relação à Venezuela, aos Brics, à Palestina e ao Irã. Na política interna, isso se converteu numa defesa recorrente da censura e da regulação dos usuários de redes sociais.
O governo foi, do ponto de vista popular, um governo paralisado. Fez muito pouco ao longo de quatro anos e cometeu diversos erros. Essa conta foi cobrada nas eleições do dia quatro de outubro. A reação de setores da campanha petista também mostra o erro do mandato. Culpar os eleitores pelo resultado é algo absurdamente errado. A política identitária e autoritária também afasta o povo da candidatura de Lula.
A política de frente ampla se mostrou um fracasso e entregou boa parte dos cargos eletivos e do povo para a direita.
Nosso voto não tem condições de desequilibrar as eleições e ajudar de forma relevante o resultado do pleito. Portanto, trata-se de uma declaração política. Politicamente, votar em Lula seria errado, seria patrocinar algo que não achamos correto e que está sendo prejudicial para a luta operária.
O Partido repudia a campanha histérica por parte da esquerda que busca assediar os eleitores e militantes de outras correntes políticas para votarem no PT. Não concordamos também com a ideia de que a eleição de Flávio Bolsonaro seria “o fim do mundo”. O mundo continuará girando depois da votação. As grandes mudanças do País não vêm pelas eleições, e sim pela luta.
O Partido não irá, contudo, adotar a posição de iniciar uma campanha de agitação em torno do voto nulo. Não vemos isso como produtivo, declaramos nossa posição e orientamos nossos militantes.
O voto do PCO não será dado a uma política que não representa os trabalhadores e que representa um setor do capital. Seja lá qual for o resultado da eleição, saibam que os explorados podem contar conosco para a luta, algo que, sim, tem uma importância definitiva.
Nenhum voto nos dois candidatos do capital, trabalhador só vota em trabalhador.
São Paulo, 13 de outubro de 2026
Partido da Causa Operária